
Saiu entusiasmado da entrevista. O texto ia se formando em sua cabeça. Contrariando as regras e dicas da escola, escolheu o título antes mesmo do desfecho, como se a síntese das palavras lá de cima ajudasse na hora do desenvolvimento. Estava feliz e orgulhoso. Orgulho daqueles que só os escritores entendem quando escrevem algo que realmente lhes agrada. Leem e releem, como se não pudessem acreditar que fossem capazes de tanto, como se não soubessem de onde surgiu tanta inspiração. Ligou para um amigo. Escolheu aquele de sensibilidade aguçada. Afinal, é inútil perder tempo com aqueles que tem preguiça com as palavras, aqueles que não olham além das letras e aqueles que não conseguem perceber o empenho suado de se escrever algo que preste. Estava feliz. Era a primeira vez que teria uma matéria assinada. Entregou para a editora. Percebeu que tinha passado um pouco das linhas combinadas, mas preferiu deixar assim. Era bom demais, ela não resistiria. Por mais que no fundo o jornalismo fosse um negócio, um jogo de interesses e influências, preferia ainda acreditar no romantismo da profissão. Acordou cedo no domingo. Preparou o café e aguardou o jornal. E lá estava o não estar. Não estava a melhor parte, o melhor trecho, aquela sacada genial que lhe fez acreditar que seria digno do pulitzer. Mesmo enfurecido, tentou relevar, afinal, já tinha escutado histórias como essas na faculdade. Continuou o trabalho normalmente. Na semana seguinte na seção de cartas estava a crítica. A leitora reclamava justamente da ausência daquilo que a editora comodamente se desfez. Ele não suportou. Abandonou o ofício e foi para a literatura. Queria escrever o quanto pudesse e ingenuamente pensou que agradaria a todos se não lhe cortassem as palavras. Esqueceu dos críticos, das comparações, dos agentes literários... Publicou um livro. Teve razoável sucesso. E quando a crítica bateu em sua porta novamente, ele não quis mais estar lá. Se trancou em um quarto e passou a escrever só para ele. Lia para seu cachorro, seu melhor amigo. Os latidos pareciam carinhosos e ele se contentava com isso. Depois de morto, teve as obras publicadas por um sobrinho. Ficou famoso, mas ainda se remexia no paletó de madeira quando lhe dirigiam palavras rudes. Como são vaidosos aqueles que amam as palavras quando as palavras dos outros não são amorosas com as deles...
pulitzer- prêmio norte-americano dedicado a trabalhos de excelência na área de jornalismo, literatura e música.